ANATOMIA  COMPARADA

Ao contrário do que muitos imaginam, o estudo da anatomia não se restringe ao corpo humano. Dentro do que conhecemos como anatomia existe um ramo, chamado de anatomia animal comparada (muitas vezes referido simplesmente por anatomia comparada), que estuda como são organizados morfologicamente os animais, incluindo o próprio homem. Seu enfoque, no entanto, é diferente do da anatomia humana. Na anatomia humana o objetivo principal é o estudo dos elementos que edificam o corpo, com o estabelecimento de algumas ilações funcionais.

Ângelo Cássio Magalhães Horn

Na anatomia comparada, além do conhecimento “per si” da estrutura corporal dos diferentes animais estudados é fundamental relacionar a forma do corpo do organismo com seu habitat e, a partir disso, tentar compreender o seu modo de vida. Também se preocupa, a anatomia comparada, com a elucidação das relações evolutivas (filogenéticas) existentes entre os diferentes animais, retiradas das homologias estabelecidas entre as mais variadas estruturas que fazem parte do corpo dos animais.

Ângelo Cássio Magalhães Horn é licenciado e bacharel em Ciências Biológicas, pela UFRGS e Mestre em Ciências Biológicas: Ênfase Fisiologia (UFRGS). Professor na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e FEEVALE, atuando em disciplinas de morfologia e fisiologia humana e comparada.



A anatomia animal comparada é uma ciência antiga, a qual tem origens que se confundem com a da própria anatomia. Sabe-se que os homens-das-cavernas tinham certo conhecimento sobre os órgãos internos de mamíferos, assim como os Babilônios e Egípcios que praticavam a cirurgia e o embalsamamento (Figura 1) (KENT e CARR, 2001).

Dados sobre a anatomia de animais aparecem, posteriormente, em trabalhos de diversos filósofos Gregos, os quais datam dos últimos 400 anos antes de cristo. Dentre estes autores destaca-se Galeno (Figura 2), prolífico personagem que redigiu mais de 100 obras sobre medicina e anatomia humana e que trabalhou em Roma de 200 a 165 antes de Cristo (KENT e CARR, 2001).

Figura 1: Múmia de um gato.
Figura 2: Cláudio Galeno.

Apesar de seus trabalhos versarem sobre a anatomia do homem, muitas das informações colhidas tinham origem em observações realizadas em macacos e outros mamíferos.

O conhecimento sobre anatomia humana encontrado nos trabalhos de Galeno, apesar de incorreto boa parte das vezes, foi aceito sem contestação por cerca de 1300 anos, enquanto perdurou a idade média (KENT e CARR, 2001).

Com o fim da idade média e o início do renascimento alguns artistas, principalmente de origem italiana, começaram a realizar observações anatômicas próprias e um conjunto de novas informações sobre o corpo humano e dos demais animais surgiu. Um destes artistas foi nada menos do que Leonardo Da Vinci. Contudo, a anatomia comparada teve, nesse período, um personagem relevante: André Vesálio (1514- 1564) (Figura 3), médico belga.
Figura 3: André Vesálio.

Apesar de Vesálio ser mais conhecido por sua De humani corporis fabrica (Figura 4), de 1543, uma incrível obra sobre a anatomia do corpo humano (Figura 5), foco principal de seu trabalho, o autor dissecou e comparou a morfologia de um série de animais como macacos, bois, cabras, ovelhas, cães e gatos com a do homem (SINGER, 1996).

Figura 4: Capa do livro De humani corporis fabrica (1543).
Figura 5: Ilustrações do De humani corporis fabrica (1543), de Vesálio.


O trabalho de Vesálio, no entanto, tinha um objetivo bem claro e específico: a anatomia humana e a incursão do autor pela morfologia de outros animais teve o propósito de retirar informações que pudessem contribuir para tanto (KENT e CARR, 2001).

Nesse mesmo período a anatomia comparada vinha sendo praticada por vários estudiosos e dentre eles é digno de citação, pela sua contribuição, Pierre Belon de Le Mans (1517-1564) (Figura 6), um naturalista francês.

Belon produziu duas grandes obras tratando sobre anatomia animal: uma na qual aborda animais marinhos e outra sobre pássaros.
Figura 6: Pierre Belon de Le Mans.

Nessa última, de 1555, apresenta um desenho impressionante, comparando o esqueleto humano com o de uma ave (Figura 7) (SINGER, 1996; KENT e CARR, 2001).

Figura 7: Gravura do “Book of Birds” (1555) comparando o esqueleto humano com o de uma ave.


Outro autor de destaque da anatomia animal comparada, dessa mesma época, foi o holandês Volcher Coiter (1534- 1576?) (Figura 8).

Apesar de sua importante contribuição para a embriologia, da qual é considerado o pai, Coiter tem como principal obra um livro no qual faz uma descrição sistemática do esqueleto de grande variedade de animais, acompanhada por uma série de desenhos de grande clareza e minuciosidade (Figura 9). Nesse livro Coiter traça a afinidade entre as diferentes partes dos esqueletos dos diferentes animais estudados (SINGER, 1996).
Figura 8: Volcher Coiter.


Figura 9: Ilustrações do livro Diversorum animalium sceletorum explicationes
iconibus artificiosis et genuinis illustratae de 1575. Fonte: SINGER, 1996.



Considerado como o fundador da anatomia comparada o Francês Georges Cuvier (1769-1832) (Figura 10) teve uma carreira extremamente prolífica nas ciências naturais. Entre seus trabalhos mais importantes no estudo da anatomia estão 9 volumes das chamadas “Lecons d'anatomie comparee”; 4 volumes sobre a organização paleontológica de esqueletos fósseis de quadrúpedes; 4 volumes de seu curso intitulado “Le reigne animal distribue d'apres son organisation pour servir de base a l'anatomie comparee” e sua principal obra, conhecida como “Historie naturelle des poissons”, composta por 22 volumes (KENT e CARR, 2001). Em seus trabalhos Cuvier ressaltava a grande interdependência entre forma e função, precisamente ajustados um ao outro.
Figura 10: Georges Cuvier.

Essa relação era responsável por permitir a adaptação do organismo ao seu meio ambiente. Cuvier utilizava esse princípio para justificar a imutabilidade dos organismos diante do tempo e assim para combater a idéia de evolução biológica (KARDONG, 1998).

O sucessor, em importância, de Cuvier na anatomia animal comparada foi o inglês Richard Owen (1804-1892) (Figura 11).

Sir Richard Owen era criacionista e comungava das idéias sobre adaptação de Cuvier, contudo achava que as correspondências entre as partes dos corpos de diferentes animais, as homologias (Figura 12), observadas em diversas situações, necessitavam de uma explicação. Com esse objetivo em mente Owen criou o conceito de arquétipo. Arquétipo, segundo Owen, vem a ser o plano básico de construção do corpo dos diferentes grupos de animais, criado por Deus. As diferenças corporais observadas, por outro lado, seriam o resultado das adaptações necessárias para a sobrevivência dos organismos nos diferentes habitats (KARDONG, 1998).
Figura 11: Richard Owen.

Figura 12: Homologias observadas nos membros anteriores de diferentes vertebrados. Apesar dos membros apresentarem diferentes formatos e funções, relacionados com o modo de vida e habitat dos animais, todos são constituídos pelos mesmos ossos que são, portanto, homólogos. Os números se referem aos dedos.


Após a publicação da “Origem das espécies”, por Charles Darwin, em 1859, o conceito de arquétipo foi deixado de lado. Hoje, graças a teoria da evolução, bem fundamentada por dados oriundos de vários campos do conhecimento, sabe-se que as homologias representam traços de ancestralidade compartilhados por organismos aparentados evolutivamente e nesse contexto a anatomia comparada pode fornecer pistas que auxiliem os pesquisadores a estabelecer as relações de parentesco entre diferentes organismos.


Referências Bibliográficas:

 KARDONG, Kennet K. Vertebrates: comparative anatomy, function, evolution. 2 ed. Boston: McGraw-Hill, 1998.

 KENT, George C. ; CARR, Robert K. Comparative anatomy of the vertebrates. 9 ed. Boston: McGraw-Hill, 2001.

 SINGER, Charles. Uma breve história da anatomia e fisiologia desde os gregos até Harvey. Campinas: Editora da Unicamp, 1996.



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